Estreia:
de Carlos Conceição
-
Catálogo/s:
-
Em exibição
-
Catálogo Risi Film
-
Cinema Português
Catálogo/s:
Portugal, 2026, 84', Classificação M/14, Drama
com McCaul Lombardi, Joana Ribeiro, Elina Löwensohn, Alba Baptista, Dinarte de Freitas, Ivo Arroja, André Cabral, Salvador Gil, Vicente Gil, Lola Herself
Um sedutor body horror de contornos noir sobre pessoas que reinventam os seus ideais de perfeição para incorporar uma atração sensual por corpos transformados por cirurgia estética.
O ativista ambiental Denver Blake decide denunciar uma clínica de cosmética que, na sua opinião, explora as inseguranças geradas pelos padrões de beleza impostos pela sociedade. No entanto, quando se apaixona por Renée, uma ex-bailarina obcecada por aperfeiçoar constantemente a sua aparência, acaba por ser arrastado para um fascinante e perturbador submundo que subverte o significado da cirurgia plástica.
Festivais e Prémios:
Edinburgh International Film Festival 2026 (Estreia mundial)
Scary Movies XIV at Lincoln Centre 2026
MOTELX Festival Internacional de Cinema de Terror em Lisboa 2026: Competição Europeia Méliès d’Argent
Ficha técnica:
Realização Carlos Conceição
Argumento Carlos Conceição
Produção Mirabilis
Coprodução Risi Film
Direção de Fotografia Rui Poças
Montagem António Gonçalves, Carlos Conceição
Direção Artística Artur Pinheiro
Guarda-Roupa Ana Simão
Som Vasco Pimentel
Música Original Nuno Bento
Um body horror deliciosamente noir à maneira de David Cronenberg; um mundo sensual de beleza e carne, colocado sob o microscópio e o bisturi. Sam Elder, Edinburgh International Film Festival
Bodyhackers estabelece um clima absolutamente convincente de desconexão em pânico, impulsionado pela transformação dos nossos corpos em produtos de consumo e por uma sensação iminente de catástrofe ecológica. The Arts Fuse
Com visuais consistentemente elegantes e frios de uma Lisboa distópica. Far Out Magazine
Carlos Conceição é um realizador português nascido em Angola, conhecido por combinar o realismo poético com uma abordagem ousada e experimental. Os seus filmes, visualmente marcantes e emocionalmente intensos, exploram a identidade, a memória, o desejo e o trauma político, fundindo frequentemente ficção e documentário. Depois de estudar Literatura, dedicou-se ao cinema, conquistando reconhecimento pelo seu tom hipnótico, pela ousadia narrativa e pela profundidade simbólica da sua obra. Reconhecido em importantes festivais internacionais, é um dos mais arrojados realizadores europeus da atualidade.
Filmografia:
Boa Noite Cinderela (2014, Curta-metragem)
Coelho Mau (2017, Curta-metragem)
Serpentário (2019, Longa-metragem, Berlinale Forum)
Um Fio de Baba Escarlate (2020, Curta-metragem)
Nação Valente (2022, Longa-metragem, Festival de Locarno)
NOTA DO REALIZADOR
Bodyhackers é uma tragicomédia de body horror, atravessada pelo noir, sobre a ruptura com a ditadura dos corpos convertidos em imagem-mercadoria e sobre os sistemas que transformam a insatisfação íntima em doutrina, dados e lucro. O camp é o método crítico do filme: transes impassíveis, linguagem científica, interiores artificiais, excesso romântico e anatomias grotescas compõem a gramática de um mundo em que as câmaras capturaram o gesto íntimo e o converteram em performance. Aqui, a artificialidade torna-se a forma que a verdade é obrigada a assumir.
No centro desse mundo está Renée, uma mulher que vive com a certeza de ter nascido com o rosto errado. A relação do filme com essa estranheza nasce do meu próprio conhecimento da dismorfia corporal. Conheço o poder exaustivo de uma imagem que passa a governar o corpo que representa, e a esperança numa alteração capaz de trazer, finalmente, alguma paz. Em Renée, a dor, o desejo, a imaginação e o erotismo convergem numa procura de autodeterminação.
Essa soberania corporal organiza a ética de Bodyhackers: cada pessoa tem o direito de determinar a forma, o significado e o futuro do seu corpo. Desse princípio decorre a solidariedade inequívoca do filme com as pessoas trans. A mesma ética exige rigor nas distinções: a disforia de género, a dismorfia corporal e o desejo de transformação cosmética correspondem a experiências irredutíveis entre si, com histórias, urgências e horizontes próprios. Cada uma torna urgente, por vias próprias, uma pergunta pessoal e política: a quem pertence a decisão sobre aquilo em que um corpo se pode tornar? O horror instala-se quando os dispositivos que tornam a transformação possível reclamam autoridade sobre ela: autorizam, medem, financiam e rentabilizam. Na clínica Vitruvio, Renée encontra linguagem, ritual e reconhecimento; a cirurgia adquire também a forma de uma teologia secular, cuja promessa de transcendência pode converter o desejo e a dor em hábito.
Denver, o americano, identifica nos corpos territórios feridos, atribuindo a si próprio a competência de os reparar e convertendo o cuidado em jurisdição. Ele encarna a moral sedutora do capitalismo benevolente. Defende invadindo, liberta controlando e confunde posse com solidariedade. O seu activismo ecológico e a relação com Renée obedecem à mesma gramática. A sinceridade das suas boas intenções torna a violência da intrusão ilegível aos seus próprios olhos.
Em Bodyhackers, carne e arquitectura são submetidas ao mesmo regime de intervenção, extracção e optimização. A mortalidade transforma-se num problema técnico; o medo, numa fonte de procura. Entre tecnologia, cicatrização, desejo e imagem, o filme pergunta o que ainda nos pode pertencer quando a medicina, o capital, o amor e a virtude política disputam a autoridade sobre o corpo.